domingo, 31 de março de 2013

Sobre a loucura

Acho que estou me perdendo.
Ja deve fazer semanas que eu me tranquei neste quarto, eu e meus pensamentos, e acredito que ninguém tenha dado pela minha falta.
Por que teriam, afinal?
Não me despedi, não deixei carta, não deixei aviso. O mundo só sente falta daqueles que dizem adeus. Os que ignoram o mundo são ignorados por ele.

Começou como um teste mental. Um exercício filosófico. Quanto tempo eu aguentaria? O que me daria vontade de voltar? Em quanto tempo eu perderia a razão?
Sempre tive medo da loucura. Não a loucura saudável, necessária para se manter a sanidade. Falo da loucura doente. A loucura que te leva aos becos mais escuros da consciência, a loucura que te isola, que te tira a voz e esconde o grito primário preso à garganta. A loucura que te abandona no vazio.
Quando pequeno, lembro do telefone tocando, para avisar que minha tia tinha sido encontrada, vagando sem rumo, vestindo apenas uma camisa branca e sandálias. Dizia ela que queria encontrar meu tio. Isso não uma, não duas vezes. Acontecia com certa frequência. Quando lhe confrontavam com a realidade, se descontrolava, atacava quem estivesse por perto, querendo voltar para sua fantasia. A viuvez nunca foi superada.
Prometi que nunca chegaria naquele estado. Mesmo quando os sussurros se iniciaram na minha cabeça, não lhes dei atenção. Passei a ter pesadelos diários. Durante o sono, insetos cobriam meu corpo, entravam pela minha boca, devoravam meus olhos. Acordava afogado no meu próprio suor. Me agarrei à minha racionalidade, aprendi a diferenciar os fantasmas do mundo real. Os sussurros se transformaram em vozes, as vozes se transformaram em gritos. Desesperados por atenção. Implorando para que eu os tornasse reais. Ignorei-os. E, na minha arrogância, uma questão despertou minha curiosidade.
Quanto eu aguentaria?
Eu era mesmo tão necessário ao mundo, e o mundo era tão necessário a mim?

Ja nem lembro em que momento tudo começou a perder o sentido.
(ou a fazer sentido, não tenho certeza.)
Durante a noite, os gritos se ocupam em me manter acordado. Há quantos dias não durmo? Meu corpo dói, meus olhos ardem. Há quantos dias estou aqui, meu Deus? Quero sair, mas não consigo me levantar desta cadeira. Estou cansado, com medo. Deixei a chave da porta na terceira gaveta da mesa, mas não me atrevo a espiar se ela ainda esta la. Não me atrevo.

Sei que alguém esta me observando. Querem me matar. Eu sei. Querem que eu ceda à insanidade, que eu ceda aos impulsos, que eu ceda aos insetos. Sei que estão aqui em algum lugar, me observando me observando. Parei de comer para não ser envenenado. Bebo apenas da minha própria urina. Enquanto me mantiver são, eles não vão me derrubar, não vão não vão.
Ouço minha tia me chamando la fora. É a loucura, querendo que eu saia para me dominar. Esta dentro de mim e esta la fora. Mas não não, ela não me engana. La fora as pessoas me olham diferente, ninguém entende ninguém entende. São todos loucos. Vou ficar aqui dentro. Protegido.
Vem ca, segura minha mão, não me deixa abrir aquela gaveta.
Segura minha mão.

La fora me julgam aberração, mas são eles as aberrações.
São vocês não eu.

A tinta da caneta começa a falhar. Não posso parar de escrever. Se preciso, rasgo um corte fundo no meu pulso e uso do meu próprio sangue. Mas não posso parar de escrever. Não posso.


Acho que estou me perdendo.
Mas eu não quero me perder.


Por favor, não deixa eu me perder. 


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quarta-feira, 27 de março de 2013

Sobre a Morte


There’s a visitor in black
At my neighbor’s house
My neighbor says tomorrow
The visitor says now
When he comes here
Please tell him that I’m out
And we all fall down..

Avett Brothers
The Fall


“ ding dong ”

- Posso ajudar?
- Boa tarde, Dr. Rogério Cardoso mora nessa casa?
- Sim, meu marido.
- Ele se encontra?
- Da parte de quem?
- Parte da Morte.
- Perdão?
- Não me reconhece?
- A senhora.. a senhora é a Morte?
- Em foice e ossos, moça. E chega de conversa, eu vim buscar a alm..
- Ora essa, por que não disse antes? Entra, entra! Desculpa a bagunça, eu não esperava a visita da Morte uma hora dessas.
- Er, imagina..
- Um minutinho que eu já chamo o Rogério – ROGÉÉÉRIO, TA NA HORA! – olha, sinta-se em casa, viu. Posso preparar um cafezinho?
- Eu não quero incomodar..
- Magina, incômodo nenhum, fica pronto num instante. Mas a senhora parece tão cansada, coitada. Veio de longe? Pegou muito trânsito? Sei que moramos bem afastados da cidade.
- Bom, teve um ataque terrorista no Paquistão.. um condenado à morte no Texas, alguns atropelamentos na Santo Amaro. E vindo pra cá aproveitei pra pegar meu manto na lavanderia.
- Então senta, senta. Café ta quase pronto. Da licença – ROGÉRIO, SE ARRUMA PRA NÃO PERDER MAIS TEMPO! – Deus sabe que já foi tempo até demais. Há há há.
- Que foi, mulher? Pra que esse escândalo?
- A Morte, ô Rogério. Você ta deixando a Morte plantada aqui te esperando. E ela deve estar cheia de almas pra buscar, não é?
- Bem..
- A Morte? Você.. a MORTE?
- Eu mesma! E não adianta fugir ou implorar, porque eu..
- Oba, oba, a Morte! Finalmente! Eulária, por que não me avisou que era a Morte? Um minutinho só, dona, que eu já me apronto.
- Eu..
- Com açúcar ou sem açúcar, dona Morte?
- Preto.
- Claro. Ah, ia me esquecendo, a senhora precisa conhecer as crianças. – MURILO! ROSA MARIA! VÊM CÁ CONHECER A MORTE!
- Crianças?
- Ah, a senhora vai adorar elas, são uma graça.
- Sabe, eu estou mesmo com um pouco de pressa.
- Aqui estão. Crianças, cumprimentem a Morte.
- Oi Morte.
- Oi Morte.
- Aliás, Rosa Maria esta com uma febre estranha nos últimos dias. Sabe, caso você queira aproveitar a viagem.
- Certo, isso está muito estranho. Eu realmente preciso ir.
- Não, fica mais um pouco. Meus pais vêm jantar hoje, já estão velhinhos, você ia adorar conhecê-los.
- Obrigada pelo café. Passo aqui outro dia. Ou nunca mais. Veremos.
- Fica mais! Rosa Maria, força essa tosse, menina!
- “cof”
- Chega! E adeus!
- Estou pronto, já podemos ir, dona.. Eulária, onde está a dona?
- Droga, Rogério! Custava pegar qualquer camisa no armário e se arrumar mais rápido? Sabe que nossa casa é fora de mão pra qualquer visita.
- Desculpa.
- Bom, fica pra próxima. Crianças, vão la dentro brincar com meus produtos de limpeza, vão. E amor, me pega o veneno de rato e o cianureto na gaveta da cozinha que eu já vou preparar o jantar.


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segunda-feira, 18 de março de 2013

Sobre o futuro


Thiago Brancatelli é um velho triste de 60 anos, que mora sozinho em um minúsculo apartamento aos pedaços em um endereço que ninguém nunca se importou em anotar.
Sua maior alegria é gritar com as crianças que brincam na rua e com os pássaros que teimam em lhe tirar de seu sono a cada manhã.
Thiago Brancatelli odeia risada, bom-humor lhe embrulha o estômago e sorrisos fazem doer um ponto específico bem entre seus olhos.

Um de seus raros prazeres é sentar em uma mureta da Av. Paulista nos dias cinzentos e chuviscosos, bebendo um copo de café preto e sem gosto do Starbucks e assistindo seu pombo de estimação saltar pela calçada. Seu pombo de estimação, o seu único e melhor amigo. Thiago Brancatelli o leva para passear a cada 3 semanas e meia, sempre usando uma coleira e munido de um chicote.
Sente falta dos seus amigos, mas sabe que estão melhor sem ele.

Thiago Brancatelli nunca teve emprego ou namorada.
Nunca teve futuro, odeia o presente e se esforça pra esquecer o passado.

Adora cortar sua barba com lâminas cegas e água fria, adora o som que um inseto faz ao ser esmagado com o dedão contra a parede do banheiro, adora comer comida congelada sem esquentar. Se diverte demais colocando números aleatórios nos Sudokus do jornal do dia anterior e criando palavras sem sentido nas palavras-cruzadas.
Thiago Bracatelli ri sozinho forçando e riscando a ponta do garfo no prato de comida quando janta sentado no chão de sua cozinha.
Gosta de passar horas olhando seu reflexo no espelho à procura de uma ruga nova, acha hilário quando finge conversar com sua própria dentadura e quando assiste ao canal do tempo.

Passa o tempo arrastando barulhentamente seus móveis sem motivo nenhum durante suas madrugadas insones. Quando cansado o bastante, se encolhe em posição fetal no centro do seu quarto, fecha os olhos e murmura alguma canção triste do seu tempo, até pegar no sono.
E nos seus sonhos, Thiago Brancatelli não é Thiago Brancatelli.
Nunca.
E nunca cometeu os erros que cometeu, e não carrega os arrependimentos que carrega. Não sendo Thiago Brancatelli, Thiago Brancatelli torna-se alguém.
Nos seus sonhos, Thiago Brancatelli nunca sonha em não ser Thiago Brancatelli.
Mas os pássaros o trazem de volta ao seu próprio corpo a cada manhã.
Sempre..

E ao passo que o fim se aproxima, mais Thiago Brancatelli entende que morrerá como sempre viveu, sendo quem sempre foi.
E, quase que comicamente, isso coloca um sorriso em seu rosto.


Thiago Brancatelli é um garoto de 26 anos.
Com os melhores amigos, a melhor família que uma pessoa pode ter.

E com todo um futuro pela frente..


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