Disseram
Que estava perdido
Mas isso não o desanimou
Ergueu um copo e então lembrou
De um tempo
Bem mais divertido
Pediu a conta e levantou
Ao decidir que ia renascer
Levantou os olhos
E o sol tentou cegá-los
Pouco antes de se pôr de vez
Caiu de joelhos
Com os olhos já vermelhos
Esperando um novo dia
Só pra provar que estava..
Bem quando o sol nasceu
Já nem lembrava o que bebeu
Tentou também esquecer a dor
Ao se pegar à beira do
Abismo em que se colocou
E o abismo lhe falou:
"Viver não é pra qualquer um,
e certamente não é pra você!"
Levantou os olhos
E o sol tentou cegá-los
Pouco antes de se pôr de vez
Caiu de joelhos
Com os olhos já vermelhos
Esperando um novo dia
Só pra provar que estava
Bem.
https://soundcloud.com/seu-wilson/sobre-o-abismo
.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Sobre últimas palavras
Entrei no quarto de hospital e, medroso, me demorei por alguns segundos antes de olhar para a cama.
Deitada, minha vó.
Frágil como eu rezei pra nunca precisar vê-la, confusa pelos remédios e pela demência.
Minha mãe se aproximou pelo outro lado da cama.
Olha, o Thiago veio te visitar.
Ela abriu os olhos, devagar, tentando entender o que acontecia. Passeou o olhar pelo quarto, olhou para o meu pai, olhou para minha mãe.
E olhou pra mim.
O rosto confuso deu lugar a um sorriso, tal qual um bebê que sorri sem saber o por que.
E eu entendi que, apesar de toda a dor, de toda a demência, de toda a idade
Ela se lembrou de mim.
Segurei de leve a mãozinha dela e fiquei la, parado, olhando e sorrindo de volta.
Não precisava de mais nada naquele momento.
Todos falam sobre últimas palavras.
Mas nunca sobre últimos olhares.
Nunca sobre últimos sorrisos.
No velório, meu tio reuniu a todos:
Este não é um momento triste.
Por favor, por favor, não fiquem tristes.
Se ela estivesse aqui, ela não ia querer ninguém triste. Tudo o que ela ia querer é que vocês voltassem para suas casas, para seus maridos e esposas, para seus filhos e filhas, namorados e namoradas e todos aqueles que forem importantes pra vocês, e dissessem
Eu te amo.
Assim, em algumas palavras, meu tio definiu minha vó.
E qualquer lágrima que me tenha escapado naquele momento, não foi por tristeza.
Não, não foi por tristeza.
Eu te amo.
Todos falam sobre últimas palavras.
Mas nunca sobre últimos olhares.
Nunca sobre últimos sorrisos.
Naquele momento, segurando a mão da minha vó, eu não tive últimas palavras.
Mas eu tive um último olhar. E eu tive um último sorriso.
E eu soube, na hora, o que aquele olhar e aquele sorriso significavam.
Eu te amo.
Do jeito mais sincero e real que poderia ser dito.
De um jeito que nenhuma última palavra conseguiria dizer.
Eu tive meu último olhar.
Eu tive meu último sorriso.
Eu tive minhas últimas palavras.
Eu tive meu eu te amo.
.
segunda-feira, 22 de abril de 2013
Sobre a coragem
Parou
Bebeu
E falou
Eu vou!
Vou porque amo
Vou porque quero
Vou porque sinto
Fundo nos meus ossos
A necessidade de ir
Parou
Bebeu
E falou
Eu vou!
Ja disse que vou!
Vou porque quero?
Vou porque tenho
Porque tenho fogo
Porque tenho medo
Porque não me aguento
Do desejo de ir
Parou
Bebeu
E falou
Eu vou!
Me deixa que eu vou!
Vou pela honra
Pela vergonha
Porque se não for
Corre o risco de ser o meu fim
E eu pulo fora de mim
Com vergonha daquilo que fui
Parou
Bebeu
E falou
Eu vou!
Parou
Bebeu
Caminhou
Parou
Tremeu
E falou
Oi
Vem sempre aqui?
.
segunda-feira, 15 de abril de 2013
Sobre o silêncio
Dentro do barco, eu e ela.
Quietos, todos os assuntos já conversados, tempo a se perder de vista.
Fala comigo.
Falar o que?
Fala qualquer coisa.
Quietos, todos os assuntos já conversados, tempo a se perder de vista.
Fala comigo.
Falar o que?
Fala qualquer coisa.
Silêncio.
Longe, avisto uma onda chegando.
Passou sem me dar bola.
Mas passou.
Quer fazer alguma coisa?
Hm.
Quer fazer o que?
Silêncio.
Os pingos da chuva me atingem, dolorosos.
Você não fala mais comigo.
Falar o que?
Só fala alguma coisa. Pra eu me sentir bem.
Silêncio.
Tempestade.
Não da mais, né?
Não sei.
Então é porque não da.
Por que não podemos ser como somos?
Não é o bastante. Quero o que fomos, não o que somos.
Céu azul. Mar azul.
Te amo.
Te amo.
Ela pula do barco e some.
Dentro do barco, eu, e apenas eu.
A tempestade passou.
Mas o sol ainda vai demorar pra sair.
Por que?
Silêncio.
.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Sobre motivos
Olhou pela janela e viu o corpo.
A notícia já estava em todos os canais: "Sem motivo, garoto flutua sobre Avenida Paulista". Sem motivo. Como se alguém precisasse de um.
Da janela do seu apartamento, no 13º andar, conseguia enxergá-lo, ao longe, bem pequeno. Mas com certeza era um corpo, e estava voando, e isso era o bastante. Bem lá no alto, e continuava a subir, sem muita pressa, como um balão que se solta das mãos de uma criança. Apenas subia.
Apanhou o binóculo para ver melhor. Era mesmo um garoto, não mais que 15 ou 16 anos. Cabelos pretos, pele clara, rosto ainda nu de menino. O jornal das 6 dizia que estava vestindo calças jeans e camiseta preta, mas não entendeu por que aquilo importaria. Só o que lhe interessava era o rosto. Estava de olhos fechados, expressão calma, como se apenas dormisse, alheio ao mundo ao seu redor. Alheio ao seu próprio milagre.
E o corpo continuou subindo. O canal 4 passava uma entrevista com a família e os amigos do garoto. Colocou a TV no mudo e continuou na janela, binóculo em mãos, apontado para o céu. Já não dava mais para ver o rosto, tão alto estava. Mesmo o corpo só ocupava parte da lente. Um helicóptero do canal 7 girava ao redor dele, procurando o melhor ângulo de filmagem. Na rua, a gritaria caótica da buzina dos carros apressados, mais preocupados em chegar a tempo ao trabalho.
E subindo, o corpo foi ficando cada vez menor, e menor, até sumir, por entre as nuvens, misturado ao azul do céu.
Sumiu e não voltou mais.
Não se falou de outra coisa pelo resto do dia.
Até onde se viu, o caso não teria se repetido em nenhum outro lugar do mundo. O nome do garoto já era o mais procurados entre as redes sociais e os sites de busca. Os canais já detalhavam sua biografia completa, todos os eventos mais banais da sua pouca vida. Todos os olhos voltados para quem era aquele garoto, cada um deles querendo descobrir o motivo de tudo aquilo.
Querendo tornar possível o impossível.
Desligou a TV e voltou à janela. Ainda olhando o céu vazio.
Lembrou do rosto do garoto, dos olhos fechados, da face serena. Talvez apenas dormisse mesmo. Dormisse e sonhasse.
E talvez, de tanto sonhar que voava..
Acabou voando.
E, por mais estranho que parecesse, aquilo lhe reconfortava.
Ao menos seria um bom motivo para sair voando.
Como se alguém precisasse de um.
.
A notícia já estava em todos os canais: "Sem motivo, garoto flutua sobre Avenida Paulista". Sem motivo. Como se alguém precisasse de um.
Da janela do seu apartamento, no 13º andar, conseguia enxergá-lo, ao longe, bem pequeno. Mas com certeza era um corpo, e estava voando, e isso era o bastante. Bem lá no alto, e continuava a subir, sem muita pressa, como um balão que se solta das mãos de uma criança. Apenas subia.
Apanhou o binóculo para ver melhor. Era mesmo um garoto, não mais que 15 ou 16 anos. Cabelos pretos, pele clara, rosto ainda nu de menino. O jornal das 6 dizia que estava vestindo calças jeans e camiseta preta, mas não entendeu por que aquilo importaria. Só o que lhe interessava era o rosto. Estava de olhos fechados, expressão calma, como se apenas dormisse, alheio ao mundo ao seu redor. Alheio ao seu próprio milagre.
E o corpo continuou subindo. O canal 4 passava uma entrevista com a família e os amigos do garoto. Colocou a TV no mudo e continuou na janela, binóculo em mãos, apontado para o céu. Já não dava mais para ver o rosto, tão alto estava. Mesmo o corpo só ocupava parte da lente. Um helicóptero do canal 7 girava ao redor dele, procurando o melhor ângulo de filmagem. Na rua, a gritaria caótica da buzina dos carros apressados, mais preocupados em chegar a tempo ao trabalho.
E subindo, o corpo foi ficando cada vez menor, e menor, até sumir, por entre as nuvens, misturado ao azul do céu.
Sumiu e não voltou mais.
Não se falou de outra coisa pelo resto do dia.
Até onde se viu, o caso não teria se repetido em nenhum outro lugar do mundo. O nome do garoto já era o mais procurados entre as redes sociais e os sites de busca. Os canais já detalhavam sua biografia completa, todos os eventos mais banais da sua pouca vida. Todos os olhos voltados para quem era aquele garoto, cada um deles querendo descobrir o motivo de tudo aquilo.
Querendo tornar possível o impossível.
Desligou a TV e voltou à janela. Ainda olhando o céu vazio.
Lembrou do rosto do garoto, dos olhos fechados, da face serena. Talvez apenas dormisse mesmo. Dormisse e sonhasse.
E talvez, de tanto sonhar que voava..
Acabou voando.
E, por mais estranho que parecesse, aquilo lhe reconfortava.
Ao menos seria um bom motivo para sair voando.
Como se alguém precisasse de um.
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domingo, 31 de março de 2013
Sobre a loucura
Acho que estou me perdendo.
Ja deve fazer semanas que eu me tranquei neste quarto, eu e meus pensamentos, e acredito que ninguém tenha dado pela minha falta.
Por que teriam, afinal?
Não me despedi, não deixei carta, não deixei aviso. O mundo só sente falta daqueles que dizem adeus. Os que ignoram o mundo são ignorados por ele.
Começou como um teste mental. Um exercício filosófico. Quanto tempo eu aguentaria? O que me daria vontade de voltar? Em quanto tempo eu perderia a razão?
Sempre tive medo da loucura. Não a loucura saudável, necessária para se manter a sanidade. Falo da loucura doente. A loucura que te leva aos becos mais escuros da consciência, a loucura que te isola, que te tira a voz e esconde o grito primário preso à garganta. A loucura que te abandona no vazio.
Quando pequeno, lembro do telefone tocando, para avisar que minha tia tinha sido encontrada, vagando sem rumo, vestindo apenas uma camisa branca e sandálias. Dizia ela que queria encontrar meu tio. Isso não uma, não duas vezes. Acontecia com certa frequência. Quando lhe confrontavam com a realidade, se descontrolava, atacava quem estivesse por perto, querendo voltar para sua fantasia. A viuvez nunca foi superada.
Prometi que nunca chegaria naquele estado. Mesmo quando os sussurros se iniciaram na minha cabeça, não lhes dei atenção. Passei a ter pesadelos diários. Durante o sono, insetos cobriam meu corpo, entravam pela minha boca, devoravam meus olhos. Acordava afogado no meu próprio suor. Me agarrei à minha racionalidade, aprendi a diferenciar os fantasmas do mundo real. Os sussurros se transformaram em vozes, as vozes se transformaramem gritos. Desesperados
por atenção. Implorando para que eu os tornasse reais. Ignorei-os. E, na minha
arrogância, uma questão despertou minha curiosidade.
Quanto eu aguentaria?
Eu era mesmo tão necessário ao mundo, e o mundo era tão necessário a mim?
Ja nem lembro em que momento tudo começou a perder o sentido.
(ou a fazer sentido, não tenho certeza.)
Durante a noite, os gritos se ocupam em me manter acordado. Há quantos dias não durmo? Meu corpo dói, meus olhos ardem. Há quantos dias estou aqui, meu Deus? Quero sair, mas não consigo me levantar desta cadeira. Estou cansado, com medo. Deixei a chave da porta na terceira gaveta da mesa, mas não me atrevo a espiar se ela ainda esta la. Não me atrevo.
Ja deve fazer semanas que eu me tranquei neste quarto, eu e meus pensamentos, e acredito que ninguém tenha dado pela minha falta.
Por que teriam, afinal?
Não me despedi, não deixei carta, não deixei aviso. O mundo só sente falta daqueles que dizem adeus. Os que ignoram o mundo são ignorados por ele.
Começou como um teste mental. Um exercício filosófico. Quanto tempo eu aguentaria? O que me daria vontade de voltar? Em quanto tempo eu perderia a razão?
Sempre tive medo da loucura. Não a loucura saudável, necessária para se manter a sanidade. Falo da loucura doente. A loucura que te leva aos becos mais escuros da consciência, a loucura que te isola, que te tira a voz e esconde o grito primário preso à garganta. A loucura que te abandona no vazio.
Quando pequeno, lembro do telefone tocando, para avisar que minha tia tinha sido encontrada, vagando sem rumo, vestindo apenas uma camisa branca e sandálias. Dizia ela que queria encontrar meu tio. Isso não uma, não duas vezes. Acontecia com certa frequência. Quando lhe confrontavam com a realidade, se descontrolava, atacava quem estivesse por perto, querendo voltar para sua fantasia. A viuvez nunca foi superada.
Prometi que nunca chegaria naquele estado. Mesmo quando os sussurros se iniciaram na minha cabeça, não lhes dei atenção. Passei a ter pesadelos diários. Durante o sono, insetos cobriam meu corpo, entravam pela minha boca, devoravam meus olhos. Acordava afogado no meu próprio suor. Me agarrei à minha racionalidade, aprendi a diferenciar os fantasmas do mundo real. Os sussurros se transformaram em vozes, as vozes se transformaram
Quanto eu aguentaria?
Eu era mesmo tão necessário ao mundo, e o mundo era tão necessário a mim?
Ja nem lembro em que momento tudo começou a perder o sentido.
(ou a fazer sentido, não tenho certeza.)
Durante a noite, os gritos se ocupam em me manter acordado. Há quantos dias não durmo? Meu corpo dói, meus olhos ardem. Há quantos dias estou aqui, meu Deus? Quero sair, mas não consigo me levantar desta cadeira. Estou cansado, com medo. Deixei a chave da porta na terceira gaveta da mesa, mas não me atrevo a espiar se ela ainda esta la. Não me atrevo.
Sei que alguém esta me observando. Querem me
matar. Eu sei. Querem que eu ceda à insanidade, que eu ceda aos impulsos, que
eu ceda aos insetos. Sei que estão aqui em algum lugar, me observando me observando.
Parei de comer para não ser envenenado. Bebo apenas da minha própria urina.
Enquanto me mantiver são, eles não vão me derrubar, não vão não vão.
Ouço minha tia me chamando la fora. É a loucura, querendo que eu saia para me dominar. Esta dentro de mim e esta la fora. Mas não não, ela não me engana. La fora as pessoas me olham diferente, ninguém entende ninguém entende. São todos loucos. Vou ficar aqui dentro. Protegido.
Vem ca, segura minha mão, não me deixa abrir aquela gaveta.
Segura minha mão.
Ouço minha tia me chamando la fora. É a loucura, querendo que eu saia para me dominar. Esta dentro de mim e esta la fora. Mas não não, ela não me engana. La fora as pessoas me olham diferente, ninguém entende ninguém entende. São todos loucos. Vou ficar aqui dentro. Protegido.
Vem ca, segura minha mão, não me deixa abrir aquela gaveta.
Segura minha mão.
La fora me julgam aberração, mas são eles as
aberrações.
São vocês não eu.
A tinta da caneta começa a falhar. Não posso parar de escrever. Se preciso, rasgo um corte fundo no meu pulso e uso do meu próprio sangue. Mas não posso parar de escrever. Não posso.
Acho que estou me perdendo.
Mas eu não quero me perder.
Por favor, não deixa eu me perder.
A tinta da caneta começa a falhar. Não posso parar de escrever. Se preciso, rasgo um corte fundo no meu pulso e uso do meu próprio sangue. Mas não posso parar de escrever. Não posso.
Acho que estou me perdendo.
Mas eu não quero me perder.
Por favor, não deixa eu me perder.
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quarta-feira, 27 de março de 2013
Sobre a Morte
There’s a visitor in black
At my neighbor’s house
My neighbor says tomorrow
The visitor says now
When he comes here
Please tell him that I’m out
And we all fall down..
Avett
Brothers
The Fall
“ ding dong ”
- Posso ajudar?
- Boa tarde, Dr. Rogério Cardoso
mora nessa casa?
- Sim, meu marido.
- Ele se encontra?
- Da parte de quem?
- Parte da Morte.
- Perdão?
- Não me reconhece?
- A senhora.. a senhora é a
Morte?
- Em foice e ossos, moça. E chega
de conversa, eu vim buscar a alm..
- Ora essa, por que não disse antes?
Entra, entra! Desculpa a bagunça, eu não esperava a visita da Morte uma hora
dessas.
- Er, imagina..
- Um minutinho que eu já chamo o
Rogério – ROGÉÉÉRIO, TA NA HORA! – olha, sinta-se em casa, viu. Posso preparar
um cafezinho?
- Eu não quero incomodar..
- Magina, incômodo nenhum, fica
pronto num instante. Mas a senhora parece tão cansada, coitada. Veio de longe?
Pegou muito trânsito? Sei que moramos bem afastados da cidade.
- Bom, teve um ataque terrorista
no Paquistão.. um condenado à morte no Texas, alguns atropelamentos na Santo Amaro. E vindo pra cá aproveitei pra pegar meu manto na lavanderia.
- Então senta, senta. Café ta
quase pronto. Da licença – ROGÉRIO, SE ARRUMA PRA NÃO PERDER MAIS TEMPO! – Deus
sabe que já foi tempo até demais. Há há há.
- Que foi, mulher? Pra que esse
escândalo?
- A Morte, ô Rogério. Você ta
deixando a Morte plantada aqui te esperando. E ela deve estar cheia de almas
pra buscar, não é?
- Bem..
- A Morte? Você.. a MORTE?
- Eu mesma! E não adianta fugir
ou implorar, porque eu..
- Oba, oba, a Morte! Finalmente!
Eulária, por que não me avisou que era a Morte? Um minutinho só, dona, que eu
já me apronto.
- Eu..
- Com açúcar ou sem açúcar, dona
Morte?
- Preto.
- Claro. Ah, ia me esquecendo, a
senhora precisa conhecer as crianças. – MURILO! ROSA MARIA! VÊM CÁ CONHECER A
MORTE!
- Crianças?
- Ah, a senhora vai adorar elas,
são uma graça.
- Sabe, eu estou mesmo com um
pouco de pressa.
- Aqui estão. Crianças,
cumprimentem a Morte.
- Oi Morte.
- Oi Morte.
- Aliás, Rosa Maria esta com uma febre
estranha nos últimos dias. Sabe, caso você queira aproveitar a viagem.
- Certo, isso está muito
estranho. Eu realmente preciso ir.
- Não, fica mais um pouco. Meus
pais vêm jantar hoje, já estão velhinhos, você ia adorar conhecê-los.
- Obrigada pelo café. Passo aqui
outro dia. Ou nunca mais. Veremos.
- Fica mais! Rosa Maria, força
essa tosse, menina!
- “cof”
- Chega! E adeus!
- Estou pronto, já podemos ir,
dona.. Eulária, onde está a dona?
- Droga, Rogério! Custava pegar
qualquer camisa no armário e se arrumar mais rápido? Sabe que nossa casa é fora
de mão pra qualquer visita.
- Desculpa.
- Bom, fica pra próxima.
Crianças, vão la dentro brincar com meus produtos de limpeza, vão. E amor, me
pega o veneno de rato e o cianureto na gaveta da cozinha que eu já vou preparar
o jantar.
.
segunda-feira, 18 de março de 2013
Sobre o futuro
Thiago Brancatelli é um velho triste de 60 anos, que mora sozinho em um minúsculo apartamento aos pedaços em um endereço que ninguém nunca se importou em anotar.
Sua maior alegria é gritar com as crianças que brincam na rua e com os pássaros que teimam em lhe tirar de seu sono a cada manhã.
Thiago Brancatelli odeia risada, bom-humor lhe embrulha o estômago e sorrisos fazem doer um ponto específico bem entre seus olhos.
Um de seus raros prazeres é sentar em uma mureta da Av. Paulista nos dias cinzentos e chuviscosos, bebendo um copo de café preto e sem gosto do Starbucks e assistindo seu pombo de estimação saltar pela calçada. Seu pombo de estimação, o seu único e melhor amigo. Thiago Brancatelli o leva para passear a cada 3 semanas e meia, sempre usando uma coleira e munido de um chicote.
Sente falta dos seus amigos, mas sabe que estão melhor sem ele.
Thiago Brancatelli nunca teve emprego ou namorada.
Nunca teve futuro, odeia o presente e se esforça pra esquecer o passado.
Adora cortar sua barba com lâminas cegas e água fria, adora o som que um inseto faz ao ser esmagado com o dedão contra a parede do banheiro, adora comer comida congelada sem esquentar. Se diverte demais colocando números aleatórios nos Sudokus do jornal do dia anterior e criando palavras sem sentido nas palavras-cruzadas.
Thiago Bracatelli ri sozinho forçando e riscando a ponta do garfo no prato de comida quando janta sentado no chão de sua cozinha.
Gosta de passar horas olhando seu reflexo no espelho à procura de uma ruga nova, acha hilário quando finge conversar com sua própria dentadura e quando assiste ao canal do tempo.
Passa o tempo arrastando barulhentamente seus móveis sem motivo nenhum durante suas madrugadas insones. Quando cansado o bastante, se encolhe em posição fetal no centro do seu quarto, fecha os olhos e murmura alguma canção triste do seu tempo, até pegar no sono.
E nos seus sonhos, Thiago Brancatelli não é Thiago Brancatelli.
Nunca.
E nunca cometeu os erros que cometeu, e não carrega os arrependimentos que carrega. Não sendo Thiago Brancatelli, Thiago Brancatelli torna-se alguém.
Nos seus sonhos, Thiago Brancatelli nunca sonha em não ser Thiago Brancatelli.
Mas os pássaros o trazem de volta ao seu próprio corpo a cada manhã.
Sempre..
E ao passo que o fim se aproxima, mais Thiago Brancatelli entende que morrerá como sempre viveu, sendo quem sempre foi.
E, quase que comicamente, isso coloca um sorriso em seu rosto.
Thiago Brancatelli é um garoto de 26 anos.
Com os melhores amigos, a melhor família que uma pessoa pode ter.
E com todo um futuro pela frente..
.
Sua maior alegria é gritar com as crianças que brincam na rua e com os pássaros que teimam em lhe tirar de seu sono a cada manhã.
Thiago Brancatelli odeia risada, bom-humor lhe embrulha o estômago e sorrisos fazem doer um ponto específico bem entre seus olhos.
Um de seus raros prazeres é sentar em uma mureta da Av. Paulista nos dias cinzentos e chuviscosos, bebendo um copo de café preto e sem gosto do Starbucks e assistindo seu pombo de estimação saltar pela calçada. Seu pombo de estimação, o seu único e melhor amigo. Thiago Brancatelli o leva para passear a cada 3 semanas e meia, sempre usando uma coleira e munido de um chicote.
Sente falta dos seus amigos, mas sabe que estão melhor sem ele.
Thiago Brancatelli nunca teve emprego ou namorada.
Nunca teve futuro, odeia o presente e se esforça pra esquecer o passado.
Adora cortar sua barba com lâminas cegas e água fria, adora o som que um inseto faz ao ser esmagado com o dedão contra a parede do banheiro, adora comer comida congelada sem esquentar. Se diverte demais colocando números aleatórios nos Sudokus do jornal do dia anterior e criando palavras sem sentido nas palavras-cruzadas.
Thiago Bracatelli ri sozinho forçando e riscando a ponta do garfo no prato de comida quando janta sentado no chão de sua cozinha.
Gosta de passar horas olhando seu reflexo no espelho à procura de uma ruga nova, acha hilário quando finge conversar com sua própria dentadura e quando assiste ao canal do tempo.
Passa o tempo arrastando barulhentamente seus móveis sem motivo nenhum durante suas madrugadas insones. Quando cansado o bastante, se encolhe em posição fetal no centro do seu quarto, fecha os olhos e murmura alguma canção triste do seu tempo, até pegar no sono.
E nos seus sonhos, Thiago Brancatelli não é Thiago Brancatelli.
Nunca.
E nunca cometeu os erros que cometeu, e não carrega os arrependimentos que carrega. Não sendo Thiago Brancatelli, Thiago Brancatelli torna-se alguém.
Nos seus sonhos, Thiago Brancatelli nunca sonha em não ser Thiago Brancatelli.
Mas os pássaros o trazem de volta ao seu próprio corpo a cada manhã.
Sempre..
E ao passo que o fim se aproxima, mais Thiago Brancatelli entende que morrerá como sempre viveu, sendo quem sempre foi.
E, quase que comicamente, isso coloca um sorriso em seu rosto.
Thiago Brancatelli é um garoto de 26 anos.
Com os melhores amigos, a melhor família que uma pessoa pode ter.
E com todo um futuro pela frente..
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