segunda-feira, 29 de abril de 2013

Sobre últimas palavras


Entrei no quarto de hospital e, medroso, me demorei por alguns segundos antes de olhar para a cama.

Deitada, minha vó.

Frágil como eu rezei pra nunca precisar vê-la, confusa pelos remédios e pela demência.
Minha mãe se aproximou pelo outro lado da cama.
Olha, o Thiago veio te visitar.
Ela abriu os olhos, devagar, tentando entender o que acontecia. Passeou o olhar pelo quarto, olhou para o meu pai, olhou para minha mãe.
E olhou pra mim.

O rosto confuso deu lugar a um sorriso, tal qual um bebê que sorri sem saber o por que.

E eu entendi que, apesar de toda a dor, de toda a demência, de toda a idade
Ela se lembrou de mim.
Segurei de leve a mãozinha dela e fiquei la, parado, olhando e sorrindo de volta.
Não precisava de mais nada naquele momento.


Todos falam sobre últimas palavras.
Mas nunca sobre últimos olhares.
Nunca sobre últimos sorrisos.


No velório, meu tio reuniu a todos:

Este não é um momento triste.
Por favor, por favor, não fiquem tristes.
Se ela estivesse aqui, ela não ia querer ninguém triste. Tudo o que ela ia querer é que vocês voltassem para suas casas, para seus maridos e esposas, para seus filhos e filhas, namorados e namoradas e todos aqueles que forem importantes pra vocês, e dissessem
Eu te amo.

Assim, em algumas palavras, meu tio definiu minha vó.
E qualquer lágrima que me tenha escapado naquele momento, não foi por tristeza.
Não, não foi por tristeza.

Eu te amo.


Todos falam sobre últimas palavras.
Mas nunca sobre últimos olhares.
Nunca sobre últimos sorrisos.

Naquele momento, segurando a mão da minha vó, eu não tive últimas palavras.
Mas eu tive um último olhar. E eu tive um último sorriso.
E eu soube, na hora, o que aquele olhar e aquele sorriso significavam.

Eu te amo.

Do jeito mais sincero e real que poderia ser dito.
De um jeito que nenhuma última palavra conseguiria dizer.


Eu tive meu último olhar.
Eu tive meu último sorriso.
Eu tive minhas últimas palavras.

Eu tive meu eu te amo.


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segunda-feira, 22 de abril de 2013

Sobre a coragem

Parou
Bebeu
E falou

Eu vou!

Vou porque amo
Vou porque quero
Vou porque sinto
Fundo nos meus ossos
A necessidade de ir

Parou
Bebeu
E falou

Eu vou!

Ja disse que vou!
Vou porque quero?
Vou porque tenho
Porque tenho fogo
Porque tenho medo
Porque não me aguento
Do desejo de ir

Parou
Bebeu
E falou

Eu vou!

Me deixa que eu vou!
Vou pela honra
Pela vergonha
Porque se não for
Corre o risco de ser o meu fim
E eu pulo fora de mim
Com vergonha daquilo que fui

Parou
Bebeu
E falou

Eu vou!

Parou
Bebeu
Caminhou

Parou

Tremeu

E falou

Oi
Vem sempre aqui?
 
 
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segunda-feira, 15 de abril de 2013

Sobre o silêncio

Dentro do barco, eu e ela.
Quietos, todos os assuntos já conversados, tempo a se perder de vista.
Fala comigo.
Falar o que?
Fala qualquer coisa.
Silêncio.
Longe, avisto uma onda chegando.
Passou sem me dar bola.
Mas passou.
Quer fazer alguma coisa?
Hm.
Quer fazer o que?
Silêncio.
Os pingos da chuva me atingem, dolorosos.
Você não fala mais comigo.
Falar o que?
Só fala alguma coisa. Pra eu me sentir bem.
Silêncio.
Tempestade.
Não da mais, né?
Não sei.
Então é porque não da.
Por que não podemos ser como somos?
Não é o bastante. Quero o que fomos, não o que somos.
Céu azul. Mar azul.
Te amo.
Te amo.
Ela pula do barco e some.
Dentro do barco, eu, e apenas eu.
A tempestade passou.
Mas o sol ainda vai demorar pra sair.
Por que?
Silêncio.
 
 
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quarta-feira, 3 de abril de 2013

Sobre motivos

Olhou pela janela e viu o corpo.
A notícia já estava em todos os canais: "Sem motivo, garoto flutua sobre Avenida Paulista". Sem motivo. Como se alguém precisasse de um.
Da janela do seu apartamento, no 13º andar, conseguia enxergá-lo, ao longe, bem pequeno. Mas com certeza era um corpo, e estava voando, e isso era o bastante. Bem lá no alto, e continuava a subir, sem muita pressa, como um balão que se solta das mãos de uma criança. Apenas subia.
Apanhou o binóculo para ver melhor. Era mesmo um garoto, não mais que 15 ou 16 anos. Cabelos pretos, pele clara, rosto ainda nu de menino. O jornal das 6 dizia que estava vestindo calças jeans e camiseta preta, mas não entendeu por que aquilo importaria. Só o que lhe interessava era o rosto. Estava de olhos fechados, expressão calma, como se apenas dormisse, alheio ao mundo ao seu redor. Alheio ao seu próprio milagre.
E o corpo continuou subindo. O canal 4 passava uma entrevista com a família e os amigos do garoto. Colocou a TV no mudo e continuou na janela, binóculo em mãos, apontado para o céu. Já não dava mais para ver o rosto, tão alto estava. Mesmo o corpo só ocupava parte da lente. Um helicóptero do canal 7 girava ao redor dele, procurando o melhor ângulo de filmagem. Na rua, a gritaria caótica da buzina dos carros apressados, mais preocupados em chegar a tempo ao trabalho.
E subindo, o corpo foi ficando cada vez menor, e menor, até sumir, por entre as nuvens, misturado ao azul do céu.
Sumiu e não voltou mais.

Não se falou de outra coisa pelo resto do dia.
Até onde se viu, o caso não teria se repetido em nenhum outro lugar do mundo. O nome do garoto já era o mais procurados entre as redes sociais e os sites de busca. Os canais já detalhavam sua biografia completa, todos os eventos mais banais da sua pouca vida. Todos os olhos voltados para quem era aquele garoto, cada um deles querendo descobrir o motivo de tudo aquilo.
Querendo tornar possível o impossível.

Desligou a TV e voltou à janela. Ainda olhando o céu vazio.
Lembrou do rosto do garoto, dos olhos fechados, da face serena. Talvez apenas dormisse mesmo. Dormisse e sonhasse.
E talvez, de tanto sonhar que voava..
Acabou voando.

E, por mais estranho que parecesse, aquilo lhe reconfortava.
Ao menos seria um bom motivo para sair voando.

Como se alguém precisasse de um.


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