Entrei no quarto de hospital e, medroso, me demorei por alguns segundos antes de olhar para a cama.
Deitada, minha vó.
Frágil como eu rezei pra nunca precisar vê-la, confusa pelos remédios e pela demência.
Minha mãe se aproximou pelo outro lado da cama.
Olha, o Thiago veio te visitar.
Ela abriu os olhos, devagar, tentando entender o que acontecia. Passeou o olhar pelo quarto, olhou para o meu pai, olhou para minha mãe.
E olhou pra mim.
O rosto confuso deu lugar a um sorriso, tal qual um bebê que sorri sem saber o por que.
E eu entendi que, apesar de toda a dor, de toda a demência, de toda a idade
Ela se lembrou de mim.
Segurei de leve a mãozinha dela e fiquei la, parado, olhando e sorrindo de volta.
Não precisava de mais nada naquele momento.
Todos falam sobre últimas palavras.
Mas nunca sobre últimos olhares.
Nunca sobre últimos sorrisos.
No velório, meu tio reuniu a todos:
Este não é um momento triste.
Por favor, por favor, não fiquem tristes.
Se ela estivesse aqui, ela não ia querer ninguém triste. Tudo o que ela ia querer é que vocês voltassem para suas casas, para seus maridos e esposas, para seus filhos e filhas, namorados e namoradas e todos aqueles que forem importantes pra vocês, e dissessem
Eu te amo.
Assim, em algumas palavras, meu tio definiu minha vó.
E qualquer lágrima que me tenha escapado naquele momento, não foi por tristeza.
Não, não foi por tristeza.
Eu te amo.
Todos falam sobre últimas palavras.
Mas nunca sobre últimos olhares.
Nunca sobre últimos sorrisos.
Naquele momento, segurando a mão da minha vó, eu não tive últimas palavras.
Mas eu tive um último olhar. E eu tive um último sorriso.
E eu soube, na hora, o que aquele olhar e aquele sorriso significavam.
Eu te amo.
Do jeito mais sincero e real que poderia ser dito.
De um jeito que nenhuma última palavra conseguiria dizer.
Eu tive meu último olhar.
Eu tive meu último sorriso.
Eu tive minhas últimas palavras.
Eu tive meu eu te amo.
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