quarta-feira, 27 de março de 2013

Sobre a Morte


There’s a visitor in black
At my neighbor’s house
My neighbor says tomorrow
The visitor says now
When he comes here
Please tell him that I’m out
And we all fall down..

Avett Brothers
The Fall


“ ding dong ”

- Posso ajudar?
- Boa tarde, Dr. Rogério Cardoso mora nessa casa?
- Sim, meu marido.
- Ele se encontra?
- Da parte de quem?
- Parte da Morte.
- Perdão?
- Não me reconhece?
- A senhora.. a senhora é a Morte?
- Em foice e ossos, moça. E chega de conversa, eu vim buscar a alm..
- Ora essa, por que não disse antes? Entra, entra! Desculpa a bagunça, eu não esperava a visita da Morte uma hora dessas.
- Er, imagina..
- Um minutinho que eu já chamo o Rogério – ROGÉÉÉRIO, TA NA HORA! – olha, sinta-se em casa, viu. Posso preparar um cafezinho?
- Eu não quero incomodar..
- Magina, incômodo nenhum, fica pronto num instante. Mas a senhora parece tão cansada, coitada. Veio de longe? Pegou muito trânsito? Sei que moramos bem afastados da cidade.
- Bom, teve um ataque terrorista no Paquistão.. um condenado à morte no Texas, alguns atropelamentos na Santo Amaro. E vindo pra cá aproveitei pra pegar meu manto na lavanderia.
- Então senta, senta. Café ta quase pronto. Da licença – ROGÉRIO, SE ARRUMA PRA NÃO PERDER MAIS TEMPO! – Deus sabe que já foi tempo até demais. Há há há.
- Que foi, mulher? Pra que esse escândalo?
- A Morte, ô Rogério. Você ta deixando a Morte plantada aqui te esperando. E ela deve estar cheia de almas pra buscar, não é?
- Bem..
- A Morte? Você.. a MORTE?
- Eu mesma! E não adianta fugir ou implorar, porque eu..
- Oba, oba, a Morte! Finalmente! Eulária, por que não me avisou que era a Morte? Um minutinho só, dona, que eu já me apronto.
- Eu..
- Com açúcar ou sem açúcar, dona Morte?
- Preto.
- Claro. Ah, ia me esquecendo, a senhora precisa conhecer as crianças. – MURILO! ROSA MARIA! VÊM CÁ CONHECER A MORTE!
- Crianças?
- Ah, a senhora vai adorar elas, são uma graça.
- Sabe, eu estou mesmo com um pouco de pressa.
- Aqui estão. Crianças, cumprimentem a Morte.
- Oi Morte.
- Oi Morte.
- Aliás, Rosa Maria esta com uma febre estranha nos últimos dias. Sabe, caso você queira aproveitar a viagem.
- Certo, isso está muito estranho. Eu realmente preciso ir.
- Não, fica mais um pouco. Meus pais vêm jantar hoje, já estão velhinhos, você ia adorar conhecê-los.
- Obrigada pelo café. Passo aqui outro dia. Ou nunca mais. Veremos.
- Fica mais! Rosa Maria, força essa tosse, menina!
- “cof”
- Chega! E adeus!
- Estou pronto, já podemos ir, dona.. Eulária, onde está a dona?
- Droga, Rogério! Custava pegar qualquer camisa no armário e se arrumar mais rápido? Sabe que nossa casa é fora de mão pra qualquer visita.
- Desculpa.
- Bom, fica pra próxima. Crianças, vão la dentro brincar com meus produtos de limpeza, vão. E amor, me pega o veneno de rato e o cianureto na gaveta da cozinha que eu já vou preparar o jantar.


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Um comentário:

  1. hehehehehehhehehehehehehehehehhehehe
    "ROGÉÉÉRIO, TA NA HORA"
    ...até pensei que ela ficar com a herança no final, puta mulher louca!

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