quarta-feira, 3 de abril de 2013

Sobre motivos

Olhou pela janela e viu o corpo.
A notícia já estava em todos os canais: "Sem motivo, garoto flutua sobre Avenida Paulista". Sem motivo. Como se alguém precisasse de um.
Da janela do seu apartamento, no 13º andar, conseguia enxergá-lo, ao longe, bem pequeno. Mas com certeza era um corpo, e estava voando, e isso era o bastante. Bem lá no alto, e continuava a subir, sem muita pressa, como um balão que se solta das mãos de uma criança. Apenas subia.
Apanhou o binóculo para ver melhor. Era mesmo um garoto, não mais que 15 ou 16 anos. Cabelos pretos, pele clara, rosto ainda nu de menino. O jornal das 6 dizia que estava vestindo calças jeans e camiseta preta, mas não entendeu por que aquilo importaria. Só o que lhe interessava era o rosto. Estava de olhos fechados, expressão calma, como se apenas dormisse, alheio ao mundo ao seu redor. Alheio ao seu próprio milagre.
E o corpo continuou subindo. O canal 4 passava uma entrevista com a família e os amigos do garoto. Colocou a TV no mudo e continuou na janela, binóculo em mãos, apontado para o céu. Já não dava mais para ver o rosto, tão alto estava. Mesmo o corpo só ocupava parte da lente. Um helicóptero do canal 7 girava ao redor dele, procurando o melhor ângulo de filmagem. Na rua, a gritaria caótica da buzina dos carros apressados, mais preocupados em chegar a tempo ao trabalho.
E subindo, o corpo foi ficando cada vez menor, e menor, até sumir, por entre as nuvens, misturado ao azul do céu.
Sumiu e não voltou mais.

Não se falou de outra coisa pelo resto do dia.
Até onde se viu, o caso não teria se repetido em nenhum outro lugar do mundo. O nome do garoto já era o mais procurados entre as redes sociais e os sites de busca. Os canais já detalhavam sua biografia completa, todos os eventos mais banais da sua pouca vida. Todos os olhos voltados para quem era aquele garoto, cada um deles querendo descobrir o motivo de tudo aquilo.
Querendo tornar possível o impossível.

Desligou a TV e voltou à janela. Ainda olhando o céu vazio.
Lembrou do rosto do garoto, dos olhos fechados, da face serena. Talvez apenas dormisse mesmo. Dormisse e sonhasse.
E talvez, de tanto sonhar que voava..
Acabou voando.

E, por mais estranho que parecesse, aquilo lhe reconfortava.
Ao menos seria um bom motivo para sair voando.

Como se alguém precisasse de um.


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Um comentário:

  1. Belíssimo texto sobre sonho. Gosto quando o texto brinca com algo mais "mágico" no meio da realidade, e a leveza da palavras me fez ter inveja do guri.

    "13° andar" foi referência a minha pessoa?

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